Você foi meu melhor erro
Você foi meu melhor erro
Oito! E a porta do elevador fecha.
O número aceso, paciente. Não era meu destino.
Um riso breve, desses que a gente dá sozinho, e no peito uma sensação de endereço antigo.
Minha mão chega perto do painel, mas não aperta nada. Três, quatro. O elevador continua subindo com aquela obediência irritante das máquinas.
Olho para a câmera no canto do teto. Desvio.
Ato falho, diria alguém. Dessas lembranças que somem por meses e, quando reaparecem na vitrine dos olhos, deveriam parar o mundo. Não param. O elevador segue, e eu, destinado, vou junto até o que me fez apertar aquele botão.
No começo eram debates intermináveis sobre a cor do medo, a força do riso. Às vezes uma cerveja depois do trabalho. Duas, no máximo. Você falava de incertezas como se fossem assunto; eu discordava como se estivesse prestando atenção. Leve. Sem pressa, sem pressão, sem provas, sem reprovar. Foi assim que a gente se acostumou a aproveitar aquele mesmo sol indo embora.
Cinco.
Andamos mil passos naquela tarde. Sala, cozinha, varanda. Cozinha, sala, varanda. Outro assunto, outra discordância. Às vezes você chegava perto demais, depois longe demais, e eu comecei a desconfiar que distância também era um jeito de conversar.
A luz do fim de tarde decorava o chão da sala com a sua sombra. Em algum momento, a minha mão encostou nela, em você, antes de mim.
Seis.
Você discordou de alguma coisa que eu nem lembro e me empurrou. Entendi. Ou achei que tinha entendido. Dei um passo para trás.
Você segurou minha mão e soltou quase no mesmo instante.
Você soltou. Meu peito, não. Vesúvio, Pompeia, fim do mundo: dois segundos de mão dada e eu já precisava reconstruir uma civilização.
Sete.
Você foi para a varanda. Eu fiquei. Suas costas brilhavam do jeito que o calor faz com a pele, a luz já indo embora, e eu, que minutos antes tinha opiniões muito elaboradas sobre incertezas, já não tinha certeza de nada.
Você olhava para o nada e procurava coisa alguma. Coisa nenhuma. Aquela coisa que ficava entre nós.
Me aproximei. Você não se afastou. Aproximei.
Um toque. Um olhar que desvia do conflito. O beijo.
No corredor, o elevador abriu e fechou. Sem ninguém entrar.
A porta abre.
O corredor está escuro. Sempre esteve. A luz da cabine avança um pouco pelo chão, e para.
Quase vem o seu perfume. Quase.
Hesito. A porta começa a fechar.
A minha mão esquerda segura.
Ela sabe fazer isso. Já segurou esta porta enquanto a outra segurava você pela cintura, pelo cabelo, pelo desejo. Um querer devagar, crescente, driblando tudo aquilo que era dúvida. Uma câmera no canto do teto? Frisson.
Agora era a aurora que nos embalava. Você chegava pela manhã, seus pés buscavam o calor dos meus dedos. Por vezes eu chegava antes que o dia começasse a cobrar de nós as horas intermináveis que vinham depois. Houve manhãs em que cheguei cedo demais só para poder me atrasar com você.
E tivemos madrugadas.
Entre o elevador e a porta, no escuro, você se mexia esperando a luz acender. Um braço procurando a parede, o corpo girando, outro passo sem saber para onde. Você queria enxergar. Eu estava cego. Sem pressa, a luz, teimosa, deixava que aproveitássemos aquela dança. Mal sabia você que aquilo era um balé, e que eu era a plateia inteira. Eu torcia para a luz não acender. E quando ela acendia, fechavam-se as cortinas.
Uma vez, a luz de emergência brilhou lá longe, e eu vi você girar contra ela. Seu corpo aparecia aos pedaços, quadro a quadro, como se o escuro tivesse aprendido cinema.
Lá fora, garrafas se encontravam. O vento entrava por uma fresta. Vozes chegavam de longe e não traziam palavras. Um gemido surgia.
No escuro, a gente tinha coragem.
Você dizia: fica.
Mas a aurora vinha recolher os amantes.
Entrego a porta. Recolho a mão e ela se fecha, como um livro de capa grossa que guarda o próximo capítulo. O elevador desce com a mesma obediência com que subiu.
Sete.
Lembra quando você chegava cedo? Só para dormir. Nada mais. Você encaixada em mim, seu coração batendo no meu peito, e eu seguindo aquela batida no meu ritmo. Nunca soube se você acompanhava o meu ou se era eu que corria atrás do seu. Na lembrança, claro, batíamos juntos.
Seis.
E tinha o sol. Entrava pela janela, curioso, procurando nosso melhor abraço, iluminando um carinho, depois outro, como se pudesse escolher qual levar. No dia seguinte voltava. Talvez quisesse conferir se ainda fazíamos igual. Fazíamos. Melhor. Cada manhã parecia a mesma, e a gente errava diferente.
Obrigado por isso, sol.
Cinco.
Houve um banho. Depois, uma camisa minha. Você conseguiu a proeza de vestir alguma coisa e parecer ainda mais despida. A barra terminava cedo demais, as mangas sobravam nos seus braços, e a camisa, que me conhecia havia anos, levou poucos segundos para me trair: em você, encontrou um desenho que nunca tinha me contado. Você atravessava a sala e ela acompanhava seus quadris com uma intimidade que eu comecei a invejar.
Nenhuma cerveja me embriagava como o que eu bebia de você.
Quatro.
Nunca lembro o que veio depois. Estranho. Tenho culpa, medo, mas também lembro de você procurando um celular que tocava, sorrindo irritada. Me abraça, você dizia.
Três.
Houve uma última manhã. Claro que nenhum de nós chamou assim. Últimas vezes são mal-educadas: só dizem o nome depois que já foram embora. Você disse alguma coisa antes de sair. Eu respondi qualquer coisa, saindo. Passei muito tempo tentando lembrar as duas e entrar de novo naquele mundo.
Um dia, eu cheguei às oito em ponto.
Prefiro insistir.
Dois.
A porta abre. O corredor está aceso.
Não saio.
Olho para a câmera no canto do teto. Não desvio.
Minha mão vai ao painel.
Oito.

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