“Rindo a caminho da execução”

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Foto by Ei Nerd

Uma vez, enquanto eu ria de um castigo que havia recebido por uma traquinagem qualquer, minha mãe me disse: “Rir a caminho da execução é sinal de loucura”. Queria eu ter frase mais sábia e precisa para definir o personagem mais icônico e dono da personalidade mais forte do mundo dos quadrinhos. Do riso, as cores vibrantes, das granadas penduradas no palito ao chocante aperto de mão, o Coringa foi criado para ser um vilão para se amar. 

Rindo a caminho da exibição percebi que a loucura é, indiscutivelmente, a linha guia para se traçar as falhas de caráter, a personalidade e o superego na construção deste personagem. Das sobrancelhas altas e marcantes de Nicholson criado pelo insólito Tim Burton, as madeixas verdes de Heath Ledger explorado por Christopher Nolan em toda sua multiplicidade de personalidades, o que esperar do réquiem apresentado Jared Leto na versão de David Ayer? 

In the Pale Moonligth A fantasia presente nas histórias construídas por Burton, como Edward Scissorhands e Big Fish, é muito bem explorada por Jack Nicholson no olhar de loucura soberba ao fritar inimigos com seu aperto de mão, ou usar a flor de ácido para desfigurar suas amantes. Nicholson perpetua em vídeo a morte jocosa de um inimigo que se apoia na loucura para galgar objetivos forjados em vingança e ódio. 

Apesar do grande significado, as risadas, soltas a caminho do chão, advinham do pequeno saco de risadas, escondido no bolso profundo do palito. Sem sombra de dúvidas um dos Coringas mais preso às sombras. “Ever Dance With The Devil In The Pale Moon Light?”, ou “You can call me Joker!”, dois exemplos da sombra presente em sua vida. 

Dançar com o demônio é uma metáfora, no caso, para ser algo que é uma antítese do que alguém acredita, um coringa que deveria trazer o riso, na verdade trazendo o fim sob a pálida luz do luar. Monstro Jack Nicholson, gênio Tin Burtom. Vale lembrar que o roteiro foi reescrito sem créditos realizados por Warren Skaaren, Charles McKeown e Jonathan Gems.

Let's put a smile on that face! Com a cabeça para fora do carro, deixando o vendo embalar as loucuras de uma mente em transe eterno, essa cena simboliza para mim o diagnóstico que Ledger construiu para o alter ego do Cavaleiro das Trevas. Mais próximo de uma loucura, crente do seu objetivo direcionado a criar o circo, ou círculo de batalha para manter o espetáculo envolvendo o Batman, o Coringa de Nolan ressurge o mais próximo possível da loucura real construída em um mundo recheado de interesses ostentados no poder e no dinheiro. 

Referências ao Asilo Arkham mostram que realmente um filho ilustre desta escola de monstruosidades fugiu e vem se fazer ouvir por meio de seus galões de gasolina. Ironicamente, ele nos propõe “put a smile in your face”, ou seja, demência no pior dos sentidos pejorativos que possamos conjugar. A forma como ele convence Harvey Dent a se tornar o Duas Caras, gênio do mal, ou então, simplesmente em conflito com o que é e o que querem que seja! 

Sem perder as traquinagens do personagem, Nolan nos dá granadas no palito e um lápis com arma mortal. Arrisco a dizer que o diretor conseguiu inverter as personalidades, deixando a cargo do Batman explorar seu lado mais sombrio (quase como um mal-necessário), enquanto o público, sem alternativas, passa a admirar a inconsequência cativante do Coringa, de Heath Ledger. 

Hoje, muitos imitam a risada, as mil vozes e a forma tragicômica que ele lidava com as situações e mudava de voz, porém , tiro o chapéu de três pontas para a criação deste personagem que de tão intenso, dizem, pode ter contribuído para o que acometeu o ator. 
 
I started a Joker A fantasia de Burtom, o lado sombrio de Nolan, ficam para trás e entra em cena uma imagem de um Joker mortal e agressivo. Nos quadrinhos e desenhos, o cabelo curto e a cara possuída sempre trouxeram um coringa muito mais cruel do que irônico. Seria um amadurecimento de um personagem que pode ser usado para exemplificar a frieza do mundo atual? 

Seria, a nossa sociedade, capaz de construir um sofrimento tamanho como este que se preludia na pele de um Leto doentio? A escolha do ator me parece ótima, pois um ator que flerta entre os gêneros na ficção e que já perdeu seus sonhos em outras produções. Jared Leto deverá marcar a geração com mais uma representatividade de um tão importante pra imaginário humano atual? 

Nesta última parte do meu artigo sobravam perguntas e dúvidas, pois até o primeiro trailer ser lançado, do filme Esquadrão Suicida, não tínhamos certeza deste novo personagem na pele do famoso vilão. Porém... parece que ouço a risada quando penso. A cena em que ele caminha de braços abertos, a risada forte marcante em compasso e perfeita harmonia com a música tema. Ironicamente, I started a Joke, simplesmente fantástico. 

Na sequência um contra plongée assustador, que revela toda face insana, maníaca e má de um ator que se encaixa na essência de seu personagem. O sorriso marcante, assombroso, digno de se trancar em um buraco e jogar o buraco fora. Até o momento, parabéns Jared Leto, o manto do Coringa parece estar mantido. Claro que nos permita apaixonar pela sua Arlequina. 

Relevando toda trama por traz da identidade deste novo Coringa (Jason Todd?), sabendo que nosso foco é a perpetuação do personagem, ficamos com a esperança de sair da sala de cinema, mais uma vez encantados por um inimigo fantástico, alucinado, comicamente mau. Afinal, seria o princípio para uma mudança na história, passaríamos a desejar o próximo filme do Coringa? Merece o Coringa um filme solo? Sem Batman nenhum para nos desvirtuar a atenção. 

That’s Life Em "Coringa" (2019), Joaquin Phoenix entrega uma interpretação realista e humana do personagem. Arthur Fleck, um comediante falido com problemas mentais, se transforma gradativamente no Coringa em um processo de degradação psicológica. A caracterização de Phoenix se destaca pela sutileza e vulnerabilidade. 

A maquiagem leve, os movimentos corporais rígidos e a fala arrastada constroem um personagem frágil e atormentado. Phoenix explora a dor e a frustração de Arthur, mostrando como a crueldade da sociedade o leva à loucura. 

As interpretações de Jared Leto e Joaquin Phoenix representam duas visões distintas do Coringa: o caos personificado versus a realidade distorcida. Ambas oferecem perspectivas válidas sobre o personagem, explorando diferentes facetas da sua complexa personalidade. 

A escolha da versão favorita depende da preferência individual. Para aqueles que buscam um Coringa extremo, violento e imprevisível, a interpretação de Leto é intrigante. Já para quem prefere uma visão mais humana, complexa e socialmente relevante, a performance de Phoenix se destaca. 

O futuro do Coringa permanece incerto, mas uma coisa é certa: ele continuará a fascinar e gerar diferentes interpretações, consolidando-se como um dos vilões mais icônicos da cultura pop. E, quem sabe, poderemos rir a caminho da imaginação com suas futuras encarnações. 

Espero poder rir a caminho da imaginação.

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