Sem ir embora
Você se apaixonou pela minha bagunça.
Não sei se foi
exatamente assim, mas é assim que eu gosto de lembrar. Eu chegando atrasado,
esquecendo a chave, mudando o caminho no meio do caminho, inventando programa
depois que o programa já tinha começado. Você reclamava daquele jeito que não
era bem reclamação, eu pedia desculpa daquele jeito que nunca foi exatamente
desculpa e, de algum jeito, funcionava.
Talvez porque,
naquela época, meus defeitos ainda tivessem apelido. Meu atraso era distração.
Minha pressa era paixão. A falta de plano, improviso. E essa minha mania de
querer tudo ao mesmo tempo você chamava de intensidade, como se trocar o nome
das coisas fosse suficiente para mudar o estrago que elas fazem.
Eu também fazia
isso com você. Chamava seu controle de cuidado, sua teimosia de certeza, seu
medo de prudência. Achava bonito você tentar colocar alguma ordem em mim
enquanto eu fazia questão de bagunçar um pouco você.
Era quase um
acordo. Eu deixava minhas coisas espalhadas pela sua vida e você encontrava um
lugar para cada uma delas. Até que um dia encontrou lugar para mim.
Depois vieram os
pequenos pedidos. Não chega tão tarde. Me avisa. Escuta até o fim. Não
transforma tudo em piada. Decide alguma coisa antes de sair decidindo tudo.
Aprende a ficar quando a conversa fica ruim.
Nada absurdo. Talvez
esse tenha sido o problema.
Você não pediu
que eu fosse outra pessoa. Pediu coisas pequenas, dessas que cabem numa frase e
parecem fáceis de guardar no bolso. Eu fui guardando. Aprendi a chegar, a
avisar, a ouvir até o fim. Descobri que nem todo silêncio precisava ser
preenchido e que algumas discussões sobreviviam perfeitamente sem a minha
última palavra.
Foi estranho no
começo, depois foi ficando certo. Você queria espaço, eu dava. Queria presença,
eu ficava. Pedia cuidado, eu entendia o recado. Menos pressa, mais conversa.
Menos impulso, mais consulta. Fui acertando o passo, aparando o traço, ocupando
menos espaço.
Olha eu rimando.
Talvez eu tenha
levado seus conselhos a sério demais, porque existe uma diferença entre mudar
por alguém e perceber, algum tempo depois, que você ficou bom naquilo.
Eu fiquei. E você
parecia feliz. Eu também, acho.
O atraso virou
exceção, a mensagem passou a chegar antes da preocupação e aprendi a não
transformar toda discordância numa final de campeonato. Parei de confundir
intensidade com urgência. Você percebeu, claro que percebeu. Só não sei quando
começou a perceber também as coisas que tinham ido junto.
Um dia você disse
que eu estava quieto e achei engraçado, porque passou tanto tempo pedindo para
eu ouvir mais que, quando finalmente aprendi, sentiu falta do barulho. Em outra
ocasião perguntou por que eu não tinha insistido. Você queria espaço e eu dei,
porque era isso que a gente fazia agora: você pedia, eu atendia. E achava que
entendia.
Quando eu chegava
perto demais, você precisava de tempo. Quando aprendi a dar tempo, perguntou
por que eu estava distante. Quando eu precisava de você, era muito. Quando
deixei de precisar, alguma coisa pareceu de menos. Você pediu estabilidade e,
quando ela chegou, começou a contar histórias do improviso.
Eu ria, não
porque você estivesse errada, mas porque reconhecia aquele homem também. Sentia
falta dele às vezes. Talvez você tenha começado a procurar em mim justamente as
coisas que eu tinha aprendido a deixar para trás.
Talvez eu também.
Talvez.
E existe uma
crueldade particular em sentir saudade de alguém que continua sentado na sua
frente. Foi aí que entendi uma coisa meio ridícula: você nunca pediu que eu
deixasse de ser eu. Eu é que fui eficiente demais.
O problema não
foi você tentar me mudar.
Foi eu ter
conseguido.
Só que algumas
coisas demoram mais para aprender. Minhas mãos, por exemplo. Elas conheciam
você sem precisar pensar. Sabiam encontrar a sua mão no escuro, afastar uma
mecha do seu rosto, abocanhar os fechos das suas roupas, entrelaçar os suspiros
de suas coxas e reconhecer pelo jeito do seu abraço quando era hora de ficar e
quando era melhor não perguntar nada. Havia uma intimidade construída de tanta
repetição que já não precisava de instrução.
Até que começaram
a hesitar.
Quase nada. Um
segundo a mais antes de tocar sua mão, um abraço que terminava antes de
encontrar descanso, meus dedos desistindo do seu prazer antes mesmo de receber
seu não tímido. Meus gestos paravam no meio, como quem bate numa porta
conhecida e, pela primeira vez, espera autorização para entrar.
Não era falta de
memória. Era memória demais.
Você estava ali.
Eu também. Era isso que doía.
Nossos olhos
ainda se encontravam com facilidade. Às vezes ficavam presos por alguns
segundos, como se um esperasse que o outro lembrasse o que vinha depois. Nenhum
lembrava.
Ou lembrava.
Talvez fosse
pior.
Porque há uma
diferença entre esquecer o caminho e continuar conhecendo um caminho que já não
leva ao mesmo lugar.
Você me
perguntava se estava tudo bem e eu dizia que estava. E não era mentira.
Essa talvez seja
a parte mais difícil de explicar. Não estava ruim. Não havia uma grande briga
esperando atrás da porta, nenhuma revelação, nenhum segredo, nenhuma mala
pronta. Não existia sequer uma frase suficientemente grave para começar uma
conversa com "a gente precisa conversar".
A gente
conversava. A gente se entendia. A gente resolvia.
E quanto melhor
ficávamos nisso, menos eu entendia o incômodo.
Até você pedir
que eu ficasse. Não lembro exatamente o motivo. Talvez você também não. Mas
lembro da frase.
– Fica.
E fiquei.
Só que alguma
coisa em mim fez o movimento contrário. Foi assim que, pedindo pra eu ficar,
você me fez ir embora.
Sem porta
batendo, sem mala. Sem embora.
Continuei ali.
Talvez seja
possível partir sem sair do lugar. Talvez seja possível ficar tempo suficiente
para ninguém perceber a diferença.
E foi nessa época
que descobri uma coisa sobre nós que preferia não ter descoberto.
Só tem um lugar
onde eu encontro conforto e você desmorona.
No caos.
Então eu imagino
você perdendo a paciência. Não essa paciência educada que termina com um
suspiro e quinze minutos em cômodos diferentes. Perde mesmo. Fala alto. Eu falo
também e, pela primeira vez em muito tempo, ninguém espera o outro terminar. As
frases atropelam as frases, você chega perto demais para a gente continuar
fingindo educação e eu sinto sua respiração misturada às palavras.
Você me acusa de
coisas que eu nem sabia que ainda guardava, eu devolvo outras que jurava ter
esquecido. Algumas são injustas, outras acertam.
Um copo cai.
Deixo cair.
O barulho é
ótimo. Não o vidro. O barulho.
Finalmente alguma
coisa naquela casa acontece sem pedir licença.
Você fala e eu
escuto cada palavra. Todas. É estranho perceber que precisei imaginar você
gritando para voltar a prestar atenção desse jeito. Eu respondo antes de
calcular, antes de escolher a palavra certa, o tom certo, a hora certa, antes
de transformar sentimento em argumento e argumento em acordo.
Você gesticula,
eu chego perto, você não recua e, pela primeira vez em muito tempo, minhas mãos
não hesitam. Finalmente
sei onde colocar as mãos. Sei retomar o caminho, o carinho, o puxão e o
empurrão.
Não porque
aprendi. Porque hoje, esqueci de pensar.
E isso me assusta
mais do que o copo quebrado.
Porque durante
anos eu soube. Soube quando calar, quando chegar perto, quando dar espaço,
quando pedir desculpa, quando esperar. Fiquei tão bom em nós dois que comecei a
sentir falta de errar você.
Na minha cabeça,
erro tudo.
Você também. A
casa fica uma bagunça. Nós também. Por alguns minutos não existe a versão
melhor de nenhum dos dois e eu reconheço você.
Talvez você me
reconheça.
Quase digo que
sinto sua falta, mas você está na minha frente e seria ridículo. No meio
daquela briga que nunca tivemos, descubro que ainda sei ficar quando tudo
desmorona.
É quando tudo
está no lugar é que eu me perco.
Você pergunta se
é isso que eu queria.
– Não sei.
Queria?
Não quero te
perder. Também não quero continuar precisando imaginar nossa ruína só para
sentir que alguma coisa ainda se move aqui dentro.
Talvez eu não
queira o fim. Talvez eu queira um acontecimento.
Uma falha, um
atraso, uma frase fora do lugar. Qualquer coisa que não funcione tão bem.
Na minha cabeça,
a discussão continua. Dizemos finalmente tudo, o copo continua quebrado no
chão, a casa virada, nós exaustos. E então acontece a única coisa que eu não
tinha planejado para essa fantasia.
A gente não
termina.
Você fica.
Eu também.
Até no meu caos a
gente dá certo.
Quase rio.
Você pergunta do
que estou rindo.
Eu ia responder
quando você pergunta se quero mais.
Demoro um segundo
para entender.
O copo está
inteiro, o corpo não. A casa está quieta, o corpo não. Você está na minha
frente. Não houve grito, não houve discussão.
Não aconteceu
nada.
Você pergunta
outra vez se quero mais e eu digo que sim. Você me entrega, eu agradeço.
Você prende o
cabelo antes de começar. Meus olhos percorrem seu pescoço.
Você não vê.
Você separa o que
sobra para guardar.
Eu levanto os
pratos para lavar.

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