Outra vez você entra

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Outra vez você entra - E o sino preso à porta toca.

Escolhe uma mesa de onde nossos olhos conseguem se encontrar sem que nenhum dos dois precise admitir que estava procurando. Não sei se você me viu primeiro. Também não importa. Você senta, deixa alguma coisa sobre a mesa, olha o celular e pede um café. Eu já comecei.

Já sei que são duas colheres de açúcar, mas não sei seu nome. A torrada vem em seguida, mas não sei seu gosto.  

Você prende o cabelo enquanto espera e eu penso em levantar. Na minha cabeça, levantei.

Atravessei o espaço entre as nossas mesas com uma tranquilidade que nunca tive, inventei alguma frase suficientemente despretensiosa para não parecer ensaiada e você riu. Não uma gargalhada dessas que a gente coloca nas histórias, para provar que deu certo. Só riu. O suficiente para eu ficar mais um pouco. Ou será que tropecei em sua cadeira e pedi desculpas sorrindo, pois vi que não comecei errado!

Perguntei seu nome. Você perguntou o meu. Pedi licença para sentar e, quando percebi, o café tinha chegado para nós dois e a conversa já tinha aquela desordem boa das conversas que ainda não sabem onde vão dar. Falamos de qualquer coisa. Clarice, Neruda, Jung. Trabalho, Beatles, Muse, The Police, uma cidade que nenhum dos dois conhecia direito. Você discordou de mim cedo demais e gostei disso. Eu disse alguma bobagem, você não achou graça e gostei disso também.

Aqui, você ainda espera seu café.

Olha para o celular outra vez. Depois para algum lugar atrás de mim. Talvez tenha olhado para mim no caminho. Talvez não. Seu olhar abre caminho na multidão, como o trator que empurra a neve do lado de fora, saem braços e abraços do percurso, casacos e bonés ficam para trás. Só seu olhar!

Tenho esse talento: onde existe dúvida, construo detalhes.

Na minha cabeça, pedi seu telefone. Depois pedi outro café. Depois pedi que ficasse. Fiz tudo com uma facilidade irritante, como se coragem fosse apenas uma questão de encontrar a frase certa antes que o medo encontrasse uma melhor.

It 's up to you e você ficou. Claro que ficou.

Na minha cabeça, você quase sempre fica.

O garçom coloca a xícara na sua frente e você mexe o café antes de provar. Uma, duas, três voltas pequenas com a colher. Não sei por que reparo nisso.

Anos depois, você ainda fazia igual.

Imagino tão bem que quase parece encorajar.

Mexer o café, o mundo também dá voltas. Você parece negociar com alguma coisa lá dentro. Eu negocio mais tempo com o mundo. E implicava com suas voltas. Você dizia que não eram três. Um dia contei quatro só para te provocar e passamos tempo demais discutindo uma coisa que não merecia nem dois minutos.

Acho que foi assim que começamos a acumular coisas que não serviam para nada.

Uma música que eu estraguei cantando errado e você nunca mais conseguiu ouvir direito. Um restaurante ruim que continuamos frequentando porque, depois de reclamar tanto na primeira vez, desistir dele pareceria admitir que tínhamos desperdiçado uma noite. Uma foto sua que você gostava e eu não entendia por quê. Uma minha que eu detestava e, por algum motivo, você se recusava a apagar.

Fomos ficando bons nessas inutilidades.

Não lembro quando comecei a deixar uma escova na sua casa. Na verdade, lembro. Só prefiro a versão em que essas coisas acontecem naturalmente, sem ninguém perceber, porque na minha cabeça tenho direito até de editar as lembranças que nunca vivi.

Hoje, me apaixono pela sua imagem na janela. Olha pra cá? Uma buzina e seu olhar volta a abrir caminho pelas luzes daquela esquina.

Não sei mais qual.

Lembro de um brilho passando pelo seu rosto enquanto alguma cidade corria atrás de você. Talvez fosse noite. Um sorriso, pra mim? “It 's up to you” novamente! Há dias em que chove nessa lembrança e outros em que você precisa apertar os olhos por causa do sol. Você me viu e eu vejo você. Depende de quando lembro.

Não aconteceu nada.

Quer dizer, aconteceu tudo aquilo que cabe entre duas pessoas separadas por um vidro: um segundo que dura mais do que devia, uma vontade absurda de acreditar que o outro também percebeu, a pequena covardia de não fazer nenhum movimento capaz de transformar possibilidade em resposta.

Um gesto, um grito percebido no vidro do metrô embaçado pelo meu sussurro. Desenho um coração em cambalhotas. Você sorri, ou só ri?

Estávamos em pé, apertados entre desconhecidos que nunca mais veríamos, embora alguns deles continuem aparecendo toda vez que me lembro. Sua mão procurou apoio no mesmo instante que a minha e nossos dedos se encontraram por acidente acompanhando o arranque do trem. O empurrão necessário.

Na primeira vez que conto essa história, você tirou a mão.

Na segunda, fui eu.

Há uma versão em que nenhum dos dois tira.

É a minha preferida.

Seguimos algumas estações assim, Abbesses, Solna Centrum, Piccadilly, em todas fingindo uma distração que exigia atenção demais. Eu sabia o nome da estação onde precisava descer. Você também sabia a sua.

Nunca concordamos sobre qual veio primeiro.

Curioso, porque às vezes nem é a mesma linha.

Há também uma plataforma em que esperei você e uma estação onde você nunca chegou. Um banco de praça que fica numa cidade em que nunca estivemos. Uma varanda que tenho certeza de que era sua, embora em algumas lembranças você more no terceiro andar e em outras não exista prédio nenhum.

Você muda um pouco também.

Não muito.

O cabelo às vezes termina antes dos ombros. Em outras lembranças você prende uma quantidade impossível dele. Há uma marca que decora seu pescoço, uma pinta perto do olho. Desaparecem anos antes. Seu riso muda de lugar. Até sua voz, quando tento ouvi-la direito, parece pertencer a uma conversa que tive com outra pessoa.

Nunca me incomodou.

Minhas lembranças sempre tiveram péssima pontualidade.

Chegam antes do acontecimento, confundem endereço, sentam à mesa errada. Algumas envelhecem comigo, sem nem mesmo terem nascido.

Talvez por isso eu tenha tantas. Tantas viagens.

Erramos uma saída e levamos quarenta minutos para admitir que estávamos perdidos. Você culpou o GPS, eu culpei a placa e nenhum dos dois considerou a possibilidade mais óbvia: eu tinha dito para virar à direita quando era à esquerda. Brigamos por quilômetros. Depois paramos num lugar que não estava no roteiro, comemos alguma coisa que não lembro e foi provavelmente uma das melhores partes da viagem.

Talvez porque eu sempre tenha pensado demais no destino.

Com você, pelo menos aqui, comecei a gostar da estrada.

Meu desejo? É correspondência.

Meu presente? É estar presente.

Meu melhor? É sentir o melhor.

Parece fácil quando escrevo assim. Quase uma receita. Como se amar fosse acertar três respostas e seguir para a próxima pergunta. Mas a correspondência nem sempre chegava no mesmo dia, estar presente às vezes significava saber a hora de ir embora. E a melhor presença vinha com a triste pecha de aparecer, justamente, nos dias em que nada extraordinário acontecia.

Era numa terça qualquer. No mercado. Esperando alguma coisa ficar pronta. Você reclamando que eu tinha comprado a marca errada outra vez. Eu reclamando que você chamava de “marca errada” qualquer uma que não fosse a sua.

Tivemos domingos que não renderiam uma foto, um post, 130 caracteres de solicitações deslizes sobre a pele arrepiada do frio la fora.

Gostei principalmente deles.

Também quintas ruins.

Você descobriu que minha intensidade cansava, tirava o fôlego sem pedir licença, fazia suar por entre sedas.Eu descobri que sua organização, aquela mesma que no começo parecia colocar alguma ordem em mim, podia ser insuportável quando eu buscava minhas roupas jogadas à sorte, por um quarto arrumado sob a luz das 6h AM. Você tentava organizar até aquilo que eu ainda não tinha decidido sentir.

Brigamos.

Não bonito.

Não dessas brigas que a gente escreve depois com frases perfeitas e uma conclusão que justifica tudo. Falamos coisas pela metade, entendemos outras pelo dobro e dormimos algumas vezes com uma distância ridícula entre dois corpos que cabiam perfeitamente na mesma cama.

Na manhã seguinte, nem sempre resolvíamos.

Isso também gostei de imaginar. Não queria uma história perfeita com você. Queria uma história que tivesse acontecido.

Aqui fora, você leva a xícara à boca pela segunda vez.

Eu ainda não levantei.

Lá dentro, já passamos da fase em que qualquer silêncio parece confortável. Alguns continuam sendo. Outros começam a precisar de legenda. Você pergunta se aconteceu alguma coisa, eu digo que não, e dessa vez nenhum dos dois acredita muito na resposta.

Acho bonito que até nossas crises tenham chegado fora de ordem.

Primeiro veio aquela de domingo, embora eu tenha certeza de que aconteceu numa quinta. Você estava cansada de alguma coisa que nunca consegui inventar direito e eu, como sempre, achei que precisava resolver. Você não queria solução. Queria reclamar. Levei anos para aprender isso e, dependendo da versão, nunca aprendi.

Depois começamos a esquecer pequenas coisas.

Não datas importantes. Seria fácil demais. Esquecemos coisas menores, que doem de um jeito mais doméstico. O nome daquele lugar onde paramos na viagem. A piada que só nós dois entendíamos, até o dia em que apenas um riu. Quem tinha escolhido a música no carro. De quem era a história que repetíamos tanto que acabou virando dos dois.

Em algumas lembranças, envelhecemos.

Em outras, você continua com a idade que tinha quando entrou por aquela porta.

Eu não.

Talvez seja essa a vantagem de imaginar alguém: você pode deixá-la parada enquanto continua indo embora.

Mesmo assim, não nos poupei.

Já dormiu. Não terminamos a discussão e eu fiquei olhando para o teto, preparando respostas para perguntas que você já não estava fazendo. Houve uma manhã em que tomamos café quase sem conversar e nenhuma tragédia aconteceu por causa disso. Houve dias em que você me irritou antes mesmo de dizer bom-dia e outros em que senti sua falta enquanto você estava no cômodo ao lado.

Te amei mal algumas vezes.

Você também.

Pelo menos foi assim que inventei.

Tenho imaginação, não ingenuidade.

Nunca acreditei que seríamos felizes para sempre. “Para sempre” sempre me pareceu uma dessas expressões que a gente inventou porque “até não dar mais” ficaria péssimo num cartão.

Então não deu.

Não sei quando.

Talvez tenha começado numa manhã qualquer, dessas que não recebem a delicadeza de avisar que serão importantes. Talvez tenhamos nos despedido aos poucos. Uma conversa a menos, uma pressa a mais. Talvez você tenha parado de contar primeiro as coisas pequenas e eu só tenha percebido quando já sabia apenas as grandes.

Há uma versão em que fui eu.

Nela você percebe antes.

Há outra em que ninguém percebe e continuamos por algum tempo cumprindo nossos pequenos deveres, dividindo contas, escolhendo jantar, perguntando se o outro quer alguma coisa da rua, enquanto alguma coisa entre nós já tinha aprendido a ir embora.

Não sei qual delas prefiro.

Engraçado. Passei tanto tempo temendo o fim e, quando finalmente pude inventá-lo, descobri que não havia nada de especial nele.

Era só um fim.

Sem trilha sonora. Sem uma última frase digna de ser lembrada. Sem ninguém correndo atrás de ninguém.

Um dia você simplesmente não apareceu mais.

E aí vieram todas as coisas que pensei que viriam. A falta, primeiro enorme, depois inconveniente, depois menor. Alguns lugares demoraram mais que outros para deixar de ser nossos. Uma música ficou impossível durante meses. Passei por aquela saída errada e ri sozinho. Guardei uma coisa sua que não tinha utilidade nenhuma e joguei fora outra que deveria ter guardado.

Continuei.

Você também, imagino.

É curioso imaginar até a saudade de uma pessoa que ainda está sentada a poucos metros de mim.

Mas talvez tenha sido ali, depois de perder você numa história que nunca começou, que finalmente entendi o tamanho do meu engano.

Eu tinha medo do fim como se o fim tivesse poder para voltar pela estrada apagando tudo.

Não tinha.

A viagem continuava lá.

A saída errada, o restaurante ruim, sua colher dando três voltas, nossas mãos se encontrando num metrô que talvez nunca tenha existido, a quinta-feira que era domingo, as conversas boas e as que deveriam ter acabado vinte minutos antes.

Até o que deu errado tinha acontecido.

E eu faria tudo outra vez.

Aqui fora, você termina o café.

Olha o celular.

Coloca alguma coisa dentro da bolsa.

Dessa vez reconheço os movimentos.

Já vi esse fim antes.

Você ainda não se levantou.

Eu também não.

Por alguns segundos existe apenas esse intervalo ridículo entre uma coisa terminar e alguém decidir o que fazer depois. Você olha a conta, procura alguma coisa na bolsa, olha de novo. Afasta um papel, encontra outro, procura mais um pouco.

Uma caneta.

Eu tenho uma.

Está na minha mão antes mesmo que eu perceba. Basta levantar, um passo (ou dois), o espaço entre nossas mesas, logo ali! Minhas histórias. É só perguntar: “Procurando uma caneta?”. Nem isso. Uma palavra apenas.

Isso? Com a caneta entre os dedos trêmulos.

Na minha cabeça, eu disse.

Você aceitou, agradeceu, perguntou qualquer coisa que não tinha importância e, de repente, estávamos conversando outra vez. Ou pela primeira vez. Já não sei.

Aqui fora, aperto a caneta entre os dedos.

Você continua procurando.

O lugar parece mais frio agora. Ou talvez seja você. Esfrega as mãos nos braços por um instante e ajeita os ombros como quem tenta caber dentro da própria roupa.

Meu casaco está na cadeira ao lado.

Claro que está.

Tenho uma caneta para a sua conta, um casaco para o seu frio e uma vida inteira para uma mulher cujo nome ainda não sei.

Só me falta levantar.

Coloco as mãos sobre a mesa.

É agora que meu corpo finalmente resolve participar da história.

O coração acelera.

O suor aparece primeiro nas mãos, depois perto da testa. Não é o suor de um corpo sentindo outro. Não vem do prazer que poderia ter acontecido, suado, cansado e terminado. Vem do medo.

O prazer teria um fim.

Meu medo encontrou um jeito de durar para sempre.

Poderia.

Minhas mãos tremem e não é por você.

É de você.

Ou do que você poderia dizer.

Engraçado. Passei anos dentro de dez minutos sem sentir medo de quase nada. Pegamos estradas, erramos caminhos, dividimos uma casa, brigamos, fizemos as pazes, cansamos um do outro, sentimos falta, envelhecemos, terminamos. Sobrevivi até ao fim de nós dois.

Mas não sobrevivo a uma pergunta que ainda nem fiz.

Então você diz não.

Não aqui.

Aqui você ainda procura uma caneta.

Mas dentro de mim você diz.

Primeiro com delicadeza. Depois tento de novo e você parece constrangida. Em outra versão, não entende de onde tirei aquela ideia. Há uma em que olha ao redor antes de responder e outra, pior, em que sorri daquele jeito que meu medo decide chamar de pena.

Talvez você ria.

Não porque riria.

Porque meu medo precisa que você ria.

Precisa transformar você em alguém capaz de me ferir para que eu possa continuar chamando de prudência aquilo que sempre foi medo. Precisa imaginar seu julgamento, sua recusa, o silêncio depois, minha volta até a mesa tentando parecer inteiro. Precisa de tudo isso antes que você tenha a oportunidade de ser qualquer coisa.

Até cruel.

Até gentil.

Até indiferente.

Até não.

Pela primeira vez tento imaginar sua resposta e percebo que passei tempo demais colocando palavras na sua boca.

Talvez porque fosse mais fácil imaginar o que você diria do que correr o risco de ouvir.

Consigo imaginar minha pergunta.

Seu não, não!

Seu sim, também não.

Talvez porque nenhum dos dois seja meu.

Você finalmente encontra uma caneta. Não a minha. Alguém deixou uma sobre o balcão e você estica o braço para pegar.

Guardo a minha.

Foi só isso.

Uma caneta.

Mas sinto como se tivesse acabado de perder alguma coisa que nunca me pertenceu.

Tive medo de estragar o que aconteceu conosco enquanto eu imaginava.

E aconteceu tanta coisa.

A janela. O metrô. A estrada errada. A casa que mudava de endereço. O restaurante ruim. As manhãs sem conversa. A discussão de quinta que às vezes era domingo. Seu café girando três vezes antes de você provar. O seu cabelo que nunca teve exatamente o mesmo tamanho. A sua voz que, se tento lembrar agora, talvez nem seja sua.

Tudo aconteceu.

Só não aconteceu conosco.

O Não teria doído por algum tempo.

O Sim teria nos colocado na estrada.

Mas foi o Talvez, quem aprendeu a envelhecer comigo.

Você assina alguma coisa, devolve a caneta e começa a guardar suas coisas.

Ainda dá tempo.

Minha cadeira poderia arrastar agora.

Eu poderia levantar.

Poderia dizer qualquer coisa. Perguntar seu nome. Comentar o frio. Oferecer o casaco tarde demais. Inventar uma pergunta idiota. Admitir que é uma pergunta idiota. Perguntar se você voltaria amanhã.

Poderia até ouvir não.

O suor escorre.

Minha mão alcança a borda da mesa.

Você coloca a bolsa no ombro.

Meu coração bate mais rápido.

Você dá um passo.

Eu também.

Na minha cabeça.

Imagino tão bem que parece encorajar.

Não encorajou.

Você passa pela minha mesa.

Por um instante, tudo aquilo que inventei cabe na distância entre o seu corpo e a cadeira em que continuo sentado. Um suspiro e sinto o perfume do cachecol, do travesseiro dos meus sonhos.

Não sei se você olha.

Dessa vez, prefiro não inventar.

A porta abre.

O sino toca quando você passa.

E, mais uma vez, ninguém fica.

Só o vazio de mais um fim.

A porta fecha.

Alguma coisa esfria sobre a mesa...


Então, o sino toca outra vez.

Outra vez você entra.




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