Depois

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 Sugestão de trilha: Depois - Marisa Monte

Depois

No escuro, ninguém tem idade.

No escuro, ninguém tem idade. Esta é a única lei da sala do Cinema. Vale por duas horas e não abre exceção pra ninguém. Lá fora, o tempo bateu o ponto todos os dias: mudou cidades, trocou telefones, encheu a sua vida de gente que eu não conheço e a minha de gente que você nunca vai conhecer. Aqui dentro, ele foi suspenso. Por contrato.

Sentei do seu lado como quem senta ao lado de alguém pela primeira vez. Depois de tanto tempo, era isso mesmo. A sala apagou antes que eu pudesse olhar direito pra você. Talvez tenha sido melhor assim. Porque antes da primeira imagem, antes da música, antes que qualquer personagem dissesse qualquer coisa, você chegou até mim de um jeito que eu conhecia. Tinha alguma coisa ali que atravessou os anos sem pedir licença.

Por alguns segundos, não estávamos ali.

A tela acendeu. Você ficou azul por um instante, depois vermelha, depois quase desapareceu quando a cena escureceu outra vez. Eu acompanhei aquelas mudanças como quem procura, entre luzes emprestadas, alguma coisa que o tempo deveria ter levado.

Não encontrei.

Ou encontrei demais.

O tempo passou para nós dois. Só não sei se passou entre a gente.

Existe uma geografia no braço de uma poltrona de cinema. São vinte centímetros de estofado e nenhuma regra escrita sobre quem tem direito a eles.

Eu não sei quanto tempo levei.

Talvez uma cena inteira.

Na tela, alguém dizia alguma coisa importante e eu concordava com a cabeça de vez em quando, como se ainda estivesse acompanhando o filme.

Não estava.

A gente já viu o que acontece quando alguém fica. E quando vai embora. Já aprendeu que promessas podem ser sinceras e ainda assim não durar, que algumas despedidas acontecem muito antes do adeus e que certas palavras, depois de ditas, não encontram caminho de volta para a boca.

A gente já sabe que querer não resolve. Que escolher alguém significa também renunciar a outras coisas. Que há encontros capazes de bagunçar vidas que levaram anos para parecer organizadas.

Antes era descoberta. Hoje minha soberba me diz que eu saberia exatamente como seguir com um toque.

Fazendo em silêncio o que se faz aos quinze.

Em algum momento, percebi que você também tinha deixado a sua ali.

Foi quando parei.

Acho que foi o filme que encostou nossas mãos.

Ou fui eu.

Não sei.

Sei que, depois disso, passei tempo demais sem mexer um músculo, com medo de que qualquer movimento lembrasse você de que ainda podia escolher.

Não sei se você percebeu.

Sei que você não tirou.

Achei o filme lento.

Culpa da montagem, pensei. O diretor parecia ter algum apego pelas cenas depois que elas já tinham cumprido sua função. Faltava coragem para cortar. Um olhar durava mais do que devia, um silêncio ganhava segundos desnecessários e a câmera permanecia ali, quase constrangida, quando qualquer roteirista minimamente desapegado já teria escrito CORTA.

O filme não estava lento.

E então sua boca estava na minha.

O gosto eu conhecia. Meu corpo reconheceu você sem pedir documento, contexto ou explicação.

Demorei para entender que não era o gosto.

Era a pressa.

Ou a falta dela.

A gente já se beijou como quem tinha o mundo inteiro pela frente e, justamente por isso, precisava fazer tudo naquela noite. Havia uma urgência adolescente mesmo quando já não éramos adolescentes, uma vontade quase arrogante de acreditar que sempre haveria outro beijo depois daquele.

Agora não.

Sua boca continuava reconhecível, mas o tempo entre um movimento e outro tinha mudado. Havia pausas onde antes havia pressa. Uma espécie de cuidado com aquilo que, por algum motivo, nenhum dos dois queria desperdiçar.

Talvez seja isso que os anos façam com um beijo. Não mudam necessariamente o sabor. Mudam o conhecimento que a gente tem do depois.

E o nosso já tinha acontecido uma vez.

Não sei quanto tempo ficamos assim.

Dessa vez, não achei a cena longa.

A gente sairia antes dos créditos.

Você perguntaria pra onde e eu inventaria qualquer resposta que parecesse menos ensaiada do que realmente era.

No apartamento, eu saberia o que fazer com o silêncio. Você deixaria alguma coisa sobre a mesa, eu perguntaria se queria beber alguma coisa, você diria que não. Ou diria que sim e esqueceria o copo em algum canto.

Não importaria.

Porque algumas intimidades sobrevivem justamente nas coisas em que ninguém presta atenção.

Eu saberia quando chegar perto e, principalmente, quando não chegar. Saber tocar também é saber esperar. Você sempre soube disso.

Ou aprendeu.

Em algum momento você está na janela.

Não sei por que tem uma janela nessa história, mas tem. Talvez toda cena inventada precise de um lugar para alguém olhar quando não consegue olhar para o outro.

Eu ficaria atrás, sem encostar.

E sentiria medo.

Você também.

Não perguntaríamos de quê.

Talvez você sorrisse primeiro. Aquele sorriso pequeno de quem acabou de descobrir alguma coisa que já sabia.

Eu sabia que você ainda estaria aqui.

Eu não perguntaria o que significa aqui.

Perto de você?

Naquela noite?

Depois de tantos anos?

Na mesma história?

É melhor não perguntar certas coisas quando a resposta finalmente parece estar do nosso lado.

Você se vira.

E escrevo a cena do jeito que ela não teve coragem de continuar.

Algumas coisas mudam. Outras só aprendem a esperar.

Por um instante, somos esse paradoxo controverso, que dispersa endorfina, dispensa serotonina e desponta cafeína.

Uma paixão de tirar do chão.

Mas minhas costas pesam contra a poltrona.

Sua mão ainda está ali.

A minha também.

Tenho medo.

Não tiro.

O filme acaba e eu não entendi o final.

Agora é esperar a luz acender e entender o meu final.

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