Agridoce
Sugestão de trilha: Agridoce - O mundo acaba hoje eu estarei dançando...
Agridoce! Engraçada essa palavra. Não é doce primeiro e ácido depois. Também não é um pouquinho de cada, cuidadosamente misturados para ninguém brigar dentro da boca. Não! No agridoce os dois chegam juntos. Ocupam a língua no mesmo instante. O açúcar agrada, o ácido provoca, e o paladar, coitado, tenta decidir o que sentiu. Não existe uma sequência confortável entre as duas coisas.
Acho que foi por isso que lembrei de você. Ou lembrei de você e depois procurei uma palavra que coubesse? Não sei! Faz tempo que minha memória trapaceia quando o assunto é nós dois. Só sei que algumas lembranças suas ainda chegam assim: provocam um sorriso e, quase no mesmo instante, apertam alguma coisa aqui dentro. Doce? Ácido? Os dois! Agridoce.
Tem gosto que fica na boca por horas. Água não resolve. Café piora. Escovar os dentes é quase uma tentativa desesperada de fingir que nada passou por ali. E eu já tentei! Troquei lugares, músicas, caminhos, perfumes... Acho que até algumas pessoas. Mas, vez ou outra, sem pedir licença, lá está aquele gosto outra vez. Seu? Nosso? Meu? Nunca consegui decidir.
Talvez porque eu continue procurando açúcar demais onde você sempre deixou um pouco de acidez. Ou porque, convenhamos, você sempre soube a medida exata para não deixar nenhum dos dois vencer. Um beijo e uma despedida. Um "fica" seguido de um "preciso ir". A porta fechando enquanto o cheiro ainda ficava no quarto. Você indo embora e alguma parte sua, mal-educada, ficando por aqui. Agridoce! Acho que finalmente descobri o nome.
E então acontece. Minha língua encontra os sabores paradoxais da sua. Um corpo encontra o meu e, por alguns segundos, tudo parece ocupar o lugar certo. Braços, pernas, respiração, aquela pequena negociação de espaços que dois corpos fazem antes de esquecer que são dois. Há calor. Há vontade. Há até alguma pressa. Mas, no meio do movimento, vem você. Não inteira! Seria mais fácil expulsar você inteira. Vem um pedaço. Um passo. Um jeito. Um quase.
Engraçado como o corpo guarda coreografias que a cabeça jurava ter esquecido. Uma mão encontra uma cintura e sabe onde ficar. A perna procura espaço entre pernas como se lembrasse o caminho. O peito reconhece a distância exata de outro peito. Não porque este corpo tenha me ensinado. Talvez porque O corpo tenha. O seu. E então cada passo de agora tropeça um pouco no passado.
Ela dança comigo. Você dança em mim.
E não é justo com ninguém! Nem com ela, que segue meus passos sem saber que alguns deles foram inventados por nós. Nem comigo, que às vezes só queria dançar sem procurar você na música. Muito menos com você, que provavelmente nem imagina continuar participando desse balé ridículo. Mas participa! No compasso que antecipo. No abraço que aperto um segundo a mais. No movimento que quase faço e desisto porque lembro exatamente onde ele terminava quando era você.
Talvez seja aí que o agridoce deixe de ser apenas dois sabores ocupando a mesma boca. Porque alguma coisa acontece quando eles se encontram. Reagem! O doce já não é mais doce. O ácido perde um pouco da acidez. E nasce um terceiro gosto. Um que não estava em nenhum dos ingredientes antes da mistura.
Tenho uma vida morna agora. E não digo morna como quem diz ruim. Morno também conforta. Morno não queima a língua, não assusta, não exige que a gente sopre antes de provar. Há uma espécie de paz nas coisas que não pegam fogo. Eu deveria ter aprendido a gostar disso antes. Talvez tivesse me queimado menos.
Mas você era fogo.
Ou eu era? Nós éramos? Olha eu outra vez tentando separar ingredientes depois da receita pronta.
Sei apenas que o morno de agora, quando encosta no fogo que ainda guardo de você, muda de temperatura. Não esquenta exatamente. Também não esfria. Vira outra coisa. Como quando uma boca encontra outra e por alguns segundos já não sabemos de quem é a saliva, de quem é o ar, quem puxou primeiro, quem está conduzindo. Há um corpo comigo, mas existe O corpo atravessando a lembrança. E entre um e outro apareço eu, tentando descobrir com quem estou dançando.
Às vezes acerto o compasso.
Às vezes descompasso.
Às vezes acho que dançar fora do compasso é apenas um jeito elegante de dançar sozinho fingindo que ainda somos dois.
E o pior é que esse terceiro gosto não se parece exatamente com saudade. Saudade eu conheço! Também não é desejo, porque desejo costuma saber para onde quer ir. Isso não sabe. Isso fica. Vai e volta. Aproxima, recua. Põe a mão na minha cintura e tira. Dá dois passos na minha direção e um para longe. Parece com doce, mas lembra o amargo da partida.
Talvez seja por isso que ainda escrevo para você.
Porque no papel ninguém precisa perguntar com quem estou dançando.
Não sei se você ainda dança.
Comigo, eu sei que não. Faz tempo! Mas às vezes me pego imaginando se ainda inclina a cabeça daquele jeito, se fecha os olhos quando esquece do mundo, se ainda precisa de alguns segundos para encontrar o ritmo antes de deixar o corpo seguir sozinho. Bobagem! Algumas lembranças deveriam vir com prazo de validade. Ou, pelo menos, perder detalhes com o tempo.
As suas não colaboram.
Porque eu poderia ter esquecido seu rosto. Seria triste, mas justo. Poderia confundir o cheiro, errar a cor de uma roupa, trocar uma palavra que você dizia sempre por outra que talvez nunca tenha dito. Minha memória já fez isso antes. Mas precisava guardar justamente o movimento? Aquele instante pequeno em que você chegava mais perto e nossos corpos faziam aquele ajuste quase imperceptível, como se soubessem alguma coisa que nós ainda não tínhamos coragem de admitir.
É disso que sinto falta.
Não de você inteira. Acho que seria mentira dizer isso depois de tanto tempo. Também não quero de volta a história, os erros, as horas roubadas, aquela nossa mania de transformar qualquer encontro numa contagem regressiva. Não quero recuperar o que fomos. Nem sei se caberia hoje. A gente mudou! Você deve ter mudado. Eu certamente estraguei e consertei algumas coisas por aqui.
Mas aquele pedaço...
Aquele eu aceitaria de volta.
Só o tempo de uma música. Talvez menos. O suficiente para descobrir se meu corpo ainda reconheceria o seu antes de mim. Se minha mão procuraria o mesmo lugar. Se você anteciparia meu passo. Se haveria silêncio ou se riríamos do absurdo de dois estranhos carregarem tanta intimidade antiga.
Tive medo de que desse certo. Mais medo ainda de que não desse. A
gridoce outra vez!
Porque existe alguma crueldade em imaginar que aquilo que um dia pareceu tão nosso possa ter desaprendido a gente. Que minha mão já não encaixe. Que seu corpo recue onde antes avançava. Que a música continue e nós dois, pela primeira vez, não saibamos o próximo passo.
Talvez seja melhor assim.
Você daí.
Eu daqui.
E esse nosso balé sobrevivendo perfeito justamente no único lugar onde ninguém pode errar o passo: na minha memória.
Mas memória também mente, né?
Talvez você nunca tenha encaixado tão perfeitamente assim. Talvez eu tenha aparado as pontas, acertado nossos passos, diminuído os tropeços e colocado música onde houve silêncio. Com o tempo a gente fica bom em editar lembranças. Corta o que machuca, repete a cena bonita, muda um pouco a luz e, quando percebe, acredita que foi exatamente daquele jeito.
Ou talvez tenha sido.
Você lembra?
Não precisa responder. Aliás, talvez seja melhor que não responda. Gosto de imaginar que em algum lugar dessa sua memória bagunçada ainda tenha sobrado alguma coisa minha. Não eu. Nunca fui a parte que se guarda. Um resto, quem sabe, desses que ficam sem pedir licença. Minha boca em algum lugar do seu corpo. Meu gosto. Uma frase idiota. Uma camiseta branca jogada no chão. Um passo que você ainda repete sem perceber de onde aprendeu.
Seria pretensão demais querer continuar em você?
Não como saudade. Saudade cobra presença. Também não como amor. Essa palavra ficou grande demais depois que aprendemos tudo o que ela exige. Queria apenas ter ficado como um sabor. Daqueles que aparecem sem convite e fazem a língua procurar alguma coisa na boca mesmo depois que já não existe mais nada ali.
Agridoce.
Talvez seja isso que você ainda seja em mim. Não o doce. Não o ácido. Nem mesmo a mistura dos dois. Você é a soma das sensações, todas, que nasceram depois. O que eu não conhecia antes de nós e, por isso, nunca consegui encontrar igual depois.
Parece com...
Deixa pra lá.
A música acabou.
Mas eu ainda estava dançando com você.

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