Quando ninguém te via
O meu te ver
Leia com música - Sugestão: Eu amei te ver - Tiago Iorc
Quando ninguém te via
Sabe aquele instante em que tudo o que você quer é um olhar? Não um aplauso, não uma plateia: um olhar. Um par! Olhos que atravessem a rua cheia e, no meio de toda aquela gente, me encontre. A vontade simples e enorme de existir pra alguém. De existir, lá no fundo, até pra mim mesmo.
Eu conheço esse instante. Eu morava nele. O mundo só me via pelo reflexo da sua retina! Olhar é isso. Assim, eu me via. Como o lago de Narciso, que só entendia sua própria beleza ao olhá-lo caminhar em suas margens. E enxergar é quase milagre, é ver beleza pura, é tocar a sensibilidade por dentro. E para quem só existe para sentir, qualquer emoção, uma faísca, uma dor, alegria, ânsia, frisson, ou frenesi. Carregar um coração desistiu de doer porque, já desistiu de bater é morar onde ninguém te enxerga.
Aí eu te vi.
E o que sai sem eu dizer, o que eu não tinha planejado confessar, é isto: eu amei te ver, mas foi te vendo que eu voltei a me ver. Eu olhava pra você e o que acendia era eu. Você nem desconfiava. Mas, mesmo calada desse jeito, invisível para multidão e olhando para uma vitrine aleatória, mesmo assim… me devolve um corpo, um desejo, uma arritmia desenfreada para um coração que procurava desesperadamente por um batimento!
Por isso eu não disse nada. O que eu sentia era grande demais pra caber numa frase. E pequeno demais pra atrapalhar seu caminho e buscar seu olhar solto pelas lajotas soltas da calçada. Então me tranco aqui, no meu peito, crescendo onde ninguém via. Inclusive você.
E eu amei te ver, enquanto meu corpo confessava…
Me prendo no silêncio e me desprendo de gritar pelo teu olhar. Fico nesse meio embolado entre o não me olha assim e o meu coração dispara quando te vejo — querendo as duas coisas, sem coragem de nenhuma.
Você mexe no cabelo e é o meu toque que eu vejo. Você ajeita a blusa, morde o canto da manga, e o meu corpo entende antes de mim. Essa é a parte que escapa sem licença: o coração sai correndo na minha frente, se enrosca nos próprios pés e, por um segundo, esquece como se faz pra bater. Não de medo de você. De medo de chegar. Querer é fácil. O passo é que pesa. Bem o passo que eu não dou.
Seus lábios marcam a roupa que outrora era minha pele. Ou que eu juro ter sido, porque a essa altura eu já não separo direito o que vivi do que quis tanto, até que virou uma memória plantada, embaçada, turva na curva do tempo. Tem dia que lembro do teu calor como quem lembra de um endereço; tem dia que desconfio que inventei a casa inteira só pra ter portas para bater atrás de você, atrás de um lugar pra onde voltar.
E é esse o nó: eu te olho agora e já chega no passado. Você está aqui, na mesma calçada, a dois passos e a um mundo de distância, e mesmo assim o que eu sinto já vem em forma de saudade. Como se a despedida estivesse plantada dentro do encontro.
A calçada é apertada. E calçada apertada amedronta o tímido: encolhe o passo, cola os ombros, empurra a gente pra beira. Só que a rua não faz nada que o peito já não faça por dentro. Os dois estreitos. Os dois sem espaço pra um gesto largo. Então eu deixo. Deixo as buzinas roubarem a cena, deixo o caos solitário do mundo real falar por mim, deixo o barulho subir alto o bastante pra cobrir o que me faltou coragem de dizer. Não luto por você. Terceirizo a coragem ao acaso e chamo de destino.
E ainda assim sai. Sempre sai. São os sussurros estridentes. O grito que eu solto em surdina, bem baixo pra você não ouvir, alto demais pra eu fingir que não disse. Os olhos que não cruzam com os teus, mas procuram. Mais uma vez procuro a mim mesmo no teu olhar me procurando na multidão. Nós dois cegos pela mesma vontade. Você sem saber que eu vejo, eu sem coragem de ser visto.
Essa rua lembra a sua vida na minha, tudo que vivemos: movimentada, caótica, sedutora. Um movimento ritmado, como a gente costumava levar a vida. Tocar a vida, a sua na minha, no mesmo compasso e sem ensaio.
Aí a vitrine me devolve a cena, e o vidro mente do jeito que eu preciso: espelha menos a rua e mais a minha fantasia. Te vendo, pelos olhos da vitrine, ainda busco teu cheiro em mim. E vejo nós dois ali dentro; correndo do sol, caminhando pra chuva, como se a chuva fosse abrigo, e a tempestade, casa.
Mas o reflexo não traz o aroma do teu toque. Devolve a imagem e retém o cheiro: me dá o longe, me tira o perto.
Volto à rua, que nua da tua compreensão, solitária da sua visão… é só rua.
Eu amei te ter e reparar que eu já te tenho no passado. A cena ainda morna eternizada na vitrine, desenhada pelo calor do sopro que embaça o vidro, não me deixa esquecer que esse amor me pega. Assim te perco no mesmo instante em que te tenho. Como quem fecha a mão para guardar água e descobre que foi o gesto de segurar que a deixou escapar. Amei te ter bem aqui, neste lugar exato onde eu desenho sonho acordado e, no susto seguinte, apago. Desenho e apago. E fico com o traço por um segundo, antes de devolver o vidro pra rua.
Não vou voltar tão cedo a este lugar. Coragem dessas não se junta numa tarde… e você, que nem sabe de mim aqui te vendo, menos ainda saberia esperar.
Mas vou voltar.
Hoje, pra te ver. E "hoje, pra te ver" tem cara de prêmio de consolação, de migalha que sobra pra quem não teve coragem do resto. Não é. Porque te ver foi o meu viver. Antes de você, os dias passavam por mim; depois de você, voltaram a acontecer comigo.
Quem sabe, um dia, eu volte pra você. Repara no "quem sabe": ele é do tamanho exato da minha coragem. Lá atrás eu terceirizei a ousadia pro acaso (e o "quem sabe" é a mesma covardia, agora vestida de esperança). Não prometo. Prometer já demonstraria bravura do que eu junto numa vida. Então deixo no "quem sabe", que é o lugar onde o tímido guarda o que não tem coragem de querer em voz alta.
E se eu não voltar pra você, eu volto pra isso: pra ter te visto. Porque foi isso o tempo todo.
Nunca faltou coragem para te amar.
Faltou uma letra.
A diferença entre te ter e te ver.
Quem passa, você esquece. Quem acontece, vira tempo verbal no passado pra sempre.
E eu amei te ver.

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