Arriscar uns riscos em notas nesta tela

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Clico na tela... e ouço: "Eu não estou interessado em nenhuma teoria. Nem nessas coisas do Oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia. E meu delírio é a experiência com coisas reais..." - Belchior na voz de Helena Badari

Apareceu sozinha na tela, uma menina que eu não conheço dedilhando uma canção velha num quarto qualquer, o celular torto, o som abafado, a corda quase me desafiando, um som quase desafinando, e era pra ser só isso, um vídeo entre mil, e não foi. Porque a mão dela na corda tinha o teu jeito. Aquele jeito teu de me conduzir por onde eu não iria sozinho, de propor a nota arriscada, a que podia quebrar tudo, e de tocá-la mesmo assim, devagar, sabendo que comigo dava certo. A gente adora arriscar em quem não se conhece. E isso risca. Quem não te saca, te toca e seguro se enrosca. Você errava de propósito porque já tinha decorado a casa exata em que eu cedia.

E de repente não era mais a menina, era você! Mais um acorde e não era mais a corda que vibrava. Acorda agora e ressoa comigo! Na mesma frequência era minha clave sol que lá você dedilhava. Seu toque suave pelo braço acústico caminhava, pelo pescoço vibrava e a nossa trilha sonora nascia.

Porque tinha as unhas. As unhas que riscavam e, riscando, rabiscavam — notas no meu corpo, uma cifra que só a tua mão sabia ler. Cada risco um som, cada som uma marca, e a marca um refrão: insistia, voltava, marcava de novo no mesmo compasso. Eu andava pela casa e era um homem cifrado, partitura ambulante de uma música que ninguém mais sabia tocar.

Como um algoritmo que dita o ritmo desse vem e vai da sua imagem, que tende a reaparecer na minha mente, em vários rostos na tela do telefone. Esse entra e sai de sites em busca de uma música que não me lembre você, mas que mostre um novo caminho, uma nova melodia, um novo alguém... em vão! Toda canção nova me empurra de volta pro mesmo cantor cansado, o que já tinha avisado que viveu demais — e o devaneio recomeça do zero. Isso é, mais uma vez, o vento soprando sons, acordes que mais uma vez me acordam a lembrança tua. Assim sigo, ouvindo... e num sussurro lento sopro o refrão junto contigo, comigo, baixinho, como costumava ser. Quero viver esse refrão entre as cordas do seu cabelo.

Mas refrão também acaba. A marca some. Cicatriza. A unha some da pele como a melodia some do ar - o vento leva, sempre leva, é o ofício dele levar. E um dia eu passo a mão no lugar e não dói, não toca, não soa. Onde havia compasso, pele lisa. Onde havia você, o tempo certo fazendo o seu trabalho devagar. O esquecimento é a única cicatriz que cura sem deixar cicatriz.

Era pra ser assim.

Só que o vento eu conheço. O vento eu confio. O que eu não sabia é que agora tem uma máquina que não esquece no meu lugar, que junta meus cacos sem minha licença, que decora o que eu quero perder e me devolve do nada, numa terça à noite: uma menina que eu não conheço, dedilhando uma canção velha, com a tua mão.

Então é com você que eu falo agora - não com ela, não comigo. É com você, que ocupa o rosto de tantos vocês que aparecem na minha tela, nesse bis infinito, enquanto eu vejo sumir da pele a marca que marcou e que sempre estará ditando o compasso que ouso seguir.

No fim, a máquina não me devolveu você. Devolveu o Belchior, tocando outra vez na minha terça-feira. Alucinado, sigo o seu encanto em pleno desencanto — porque vivi de mais e acordei de menos, e no fim o que me sobra é hoje.


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