Medo de me deixar dirigir?
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Eu piso fundo, outra vez. Congelo, estático. Outra vez
lutando contra o tempo pra formular uma vida inteira pra te dar! Sou um
caminhante, sem caminho e sem carona.
Pisa no freio e calma! Vai com calma, pra que a pressa?
Adoro a forma como você confunde as marchas, abaixa o volume
pra ler as placas e põe apelido em nossos carros. Devagar, não é hora para
acelerar. Abre outro vinho, pare no acostamento. Temos um gap ali, ema lacuna
logo mais, um lapso e um vazio imenso para preencher com nossos segundos.
Só quero te convidar para mais um tempo, mais uns trechos,
cacos e migalhas de tudo aquilo que podemos juntar em torno dessas lágrimas,
desse dilúvio que te carrega daqui.
Eu insisto, fica! Tem um momento pra mim? Hoje? E amanhã?
A cafeína de sua companhia é combustível suficiente para eu
poder seguir. Foco na estrada, tira o olho de mim. Deixe tua mão matar a
curiosidade, teu desejo, tua sede e vontade de explorar o mundo que se esconde
no acostamento.
Já perdi as contas de quantas aeronaves pude observar pelo
vidro. Lá vai mais uma. Elas sobem e descem, com inveja do teu movimento, do
teu quadril. O calor deste motor, nos fornece o suor necessário para nosso corpo
deslizar.
Que viagem você! De cabelo embaraçado, envergonhada,
realizada. Trançando as pernas e traçando a rota, para não mais voltar. Embarcando
assim, sem bagagem, apenas indo.
Em cada bolsa, mochila ou sacola encontro histórias e
lembranças que você fez questão de deixar nas esteiras girando, enquanto nosso
mundo girava naquele banco. De trás. Que não mais te traz. Frio como o couro
que deixei suas unhas levar. Lembrança fria da carne quente. Ainda sinto o teu
balançar. A força, que me fez vibrar naquele aeroporto.
Grito pra mim mesmo e não pra você. Sei que um sussurro já
seria o suficiente para te atingir. Te derrubar. Mas, são os meus ouvidos que
não aguentam mais ouvir que você quer soltar o volante, mas não tem coragem de
me passar a direção.
Vamos rodar? Vamos soltar? Saltar talvez!
Até o pneu deixou de cantar as desventuras que vivemos
nessas estradas. Mas, é assim, vá! Pegue seus lenços e deixe que a estrada me
traga mais.
Ah sim, a estrada!

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