Pouco me lembro de mim
LEIA COM MUSICA
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Como quem abre os olhos e não reconhece o caminho até ali,
percebi que nem as fotos mais recentes, faziam minha memória me levar até ali,
onde foram dados alguns passos. Roma, Paris, Veneza, Londres e Amsterdã – Ok,
Amsterdã é fácil compreender o Gap, a amnésia funcional. Mas, é estranho olhar
para a imagem congelada no tempo, em uma tela de computador, celular, ou
impressa em papel fotográfico e não se reconhecer, simplesmente não lembrar.
Horas em vão sentado na frente da tela pálida do monitor
velho e nenhuma identificação com o rapaz maravilhado com tantas estátuas,
escadarias e conversas jamais compreendidas nas esquinas onde suas dúvidas
pareciam guiá-los. Será que não levei a sério o suficiente aquele momento? Que
inocência não entender que aquilo ali jamais voltaria!
A memória é realmente um abismo em que a queda não te
permite colher todos os dados armazenados em ramos e galhos pendurados em meio
a enorme parede de rocha fria e escura.
Nada! As vezes chego a duvidar se sou eu mesmo a sorrir no
plástico, tantos lugares, tantos registros. Olhando para as fotografias,
desafio a mim mesmo construir os passos minutos antes daquele “Rec”, ou o momento
seguinte? O que fizemos depois daquele selfie? Depois daquela cerveja?
Que angústia crescente não ser capaz de fazer este feedback
sozinho. Um exercício de reconstrução dos passos em que a conta, ao final,
simplesmente, não bate. Para o caminhante, olhar para suas pegadas e não reconhecer
as marcas deixadas na estrada é o pior pesadelo, o pior castigo.
Não é justo, com apenas uma onda, um sopro, a natureza leva
embora o registro de uma caminhada, uma vida. Faz isso não! Deixa-me guardar os
fragmentos, colher rabiscos, itens embriagados que possam ser usados para
reconstruir delírios sóbrios de outras noites. Como um caçula, aprendeu a
refazer o desenho de seu irmão mais velho na rua de casa, hoje distante, só
para mantê-lo vivo e perto, insisto e refaço rotas, toda vez que a chuva teima
em apagar o velho desenho de tijolo.
Uma vida é melhor contada quando são as pessoas que se cativa
que recordam os detalhes. Talvez o foco no amanhã, torna o hoje tão
perene. A criança que corre e se equilibra
em muros não se dá conta dos anos que
separam a insana e louca vida que carrega poetas e fortalece os poemas. É como
a dor da tatuagem que se torna mais marcante que a história que pulsava no
jovem coração, covarde, que construiu traços e cicatrizes para não perder o
momento.
Lembra comigo? Senta perto, fala alto, leve-me de volta até
aquele dia, aquela foto. Na tua voz embarco sem medo, mesmo com pressa de
chegar. Rumo certo, minha memória está ali, na tua fala e na dela. Quando você
conta, fica fácil de encontrar, ligar os pontos. No imaginário daqueles que me
conhecem tenho o carimbo do passaporte.
Os calçados que teimam em gastar no calcanhar do lado
direito, são a prova concreta de que a estrada reconhece meus passos. Você me
lembra de mim? Assim? Enfim?

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