Entre castelos de areia

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 Apenas um sonho de criança! Perguntei à minha mãe quantos anos eu tinha, quando daquela viagem pra praia. Que viagem! Um sonho de criança e você iria junto, parte do roteiro, da equipe, dos sonhos! Eu não acreditava que ia dividir o banco de trás do Verona com você...

“Para mim era a coisa mais desejada da vida, afinal eu nunca tinha ido pra praia, me preparei durante dias pra que aquele sonho se realizasse”.

Eu também!

Não saía da minha cabeça. Acordar, ver você correr pra areia quente, fazer castelos, curtir o sol, risos e aquele horizonte azul de água salgada banhando a nossa inocência. Crianças! Éramos crianças. Sem noção nenhuma da malícia madura que, hoje, nos revela o que poderia ter acontecido.

Não tinha pecado, não eram os corpos que se atraiam sem controle e se desejavam, mas o sorriso, o cântico, o amor juvenil de crianças que se descobriam no toque das mãos, no puxão de cabelo, na disputa por atenção.

‘Claro que eu queria muito viajar com o gatinho que me paquerava na escola! hehehe. Lindo, gentil, atencioso, respeitoso (até de mais as vezes. E eu ingênua, adorava e aceitava como quem admira o que é belo por si só)”.

Era recíproco então? Você também estava lá? Digo, com este sentimento que 100 mil palavras neste blog jamais conseguirão explicar. Mas, que pulsava dentro de mim e me empurrava para o labirinto da maturidade. Tantas portas, tantos atalhos, tantos nãos. Incontáveis tombos prontos para me ensinar a levantar e seguir em frente.

“Claro que eu sentia também. Eu aprendia na mesma velocidade e podia jurar que você iria me ensinar. Cada passo, cada etapa. Mas, faltou aquela praia, faltou aquele beijo”.

É, a praia não veio! Como a onda do mar que desmancha castelos na areia, nossos sonhos de realização infantil foram levados, naquela maré. Só ficaram as marcas de uma ansiedade gerada pela fantasia, pela paixão, pelo desejo de descobrir a vida naquele beijo que nunca aconteceu.

“Mas, foi você que não me beijou, ali, naquela janela. Paradinha ali, era o momento que eu tanto esperava!”

“Eu jurava que você ia me beijar”
Eu jurava que você ia me beijar

“Naquela janela você selaria meu futuro, pois o beijo seria só o começo de tudo. Faltou coragem... Me deu medo! Sei lá! Na hora pensei ‘nós nem chegamos na praia ainda!’

Medo? Minhas pernas tremiam, sua boca estava ali. Em segundos um milhão de cenas de filmes, muitas trilhas sonoras e como um ator que perde a fala e o público aplaude para encorajar a próxima cena, seu olhar me perdoou pela coragem que me faltou e também pensei na praia e nas oportunidades que viriam. Éramos crianças e eu ainda guardava a essência de menino.

“Mas a praia não chegou”

Nem o beijo!

“Como eu queria que aqueles segundos na janela voltassem!”

Como eu queria dominar a caneta da história e reescrever o desfecho de nosso momento.

“Lembra da aquela vês na praça? Quando te vi, em minha direção, pensei: ‘Meu namorado, que não é meu!’ Conversamos alguns minutos, que poderiam ter virado horas, né? Poderiam ser semanas”.

Não havia mais inocência, mas também não havia mais janela.

“Eu já era mãe! Que turbilhão de sentimentos, meu Deus! Desejos, pecado, outro tipo de medo, Mas tinha alegria em te ver e sentir. Foi diferente, mas sentir você sem ser tua, foi apavorante e maravilhoso. Meu desejo era maduro agora”.

O meu também. Você parada ali. Com uma história em construção, uma família, um outro caminho. Queria muito ter feito parte disso. Muito.

“Uma vez te vi na rua. Cabelo comprido, jeans velho, camisa branca. Um homem! Porque não me jogou no carro e sumiu comigo? Teu abraço desmoronou a mulher dentro de mim. Dona da malícia, senhora de meus prazeres, derretida ali perante um abraço que me envolvia com braços, cheiro e uma pele que por pouco não me rouba a responsabilidade e me fez experimentar teu gosto”.

Menino! Eu seria um tolo se deixasse você chamar de homem, aquele garoto apaixonado por um castelo de areia e que lutava para que um abraço falasse por todos os poetas. Um covarde, que se escondeu atrás de elogios, quando deveria usar a força de sua tentação para te levar dali. O passeio de mãos dadas na praia estava mais uma vez vivo, num abraço, em uma vontade imensa de te descobrir como mulher.

Muitas janelas se abriram e se fecharam. Muitos castelos ficaram para trás, junto com as pegadas que deixamos nessa praia. Bora olhar pra frente? Temos um oceano logo ali, que nos convida a nadar de braçada. Traga sua pá, eu levo meu baldinho!

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