A minha-tua pele no varal

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Instagram Fabiana Simões
"Você tem uma toalha?"

Ofegante, doce e timidamente, ela me pede uma toalha para cobrir seu corpo suado, após 45 minutos de um balé descoreografado e estranhamente harmônico. Estranho sim, eu mal tinha conseguido convencê-la da minha vida, quanto mais da minha cama. O que tornava cada subida, cada decida, cada pequeno e preciso movimento, ainda muito mais intenso, porém leve.

O treino leva a perfeição, ok! Mas, não se pode negar que talento vem de dentro e o compasso aplicado ali, foi como o caminhante que descobre seu caminho a cada passo, em toques pela longa estrada de seu corpo. Mordidas, puxões e olhares. O suor da testa, em minutos tomou a nuca, escorria pelos braços, lubrificava suas coxas e pingava por todo lençol, chão e insistia em manchar as paredes.

Lembro da primeira gota. Fiz questão de acompanhar, nascendo em teus cabelos e surgindo logo atrás de seu olho direito. Desceu e acompanhou toda curva de seu queixo, ganhou seu pescoço (que curvado para trás, acelerou sua descida), cuidadosamente e de forma caprichosa, esta primeira gota acompanhou toda curva de seu peito procurou abrigo em seu umbigo, porém, ao lado de minha língua que experimentava o sabor de sua cintura, ela buscou suas pernas e foi dar vida à um longo rio de sensações no chão. 

Você tem uma toalha? Não fazia ideia, eu, que aquela velha toalha azul, manchada e desfiada do tempo, acostumada a absorver gotas d’água, agora, é pele. Pele que me envolve em sua ausência e me traz seu corpo de volta. Não mais toalha, a minha-tua pele pendurada no varal, perfuma a casa com o aroma de tua lembrança, com o calor da pele, que um dia fez aquecer meu corpo.

Em meus braços, minha-tua pele não deixa esquecer de nosso balé. Das coxas, que lubrificadas pela essência de nossa dança, deslizavam sem atrito, quase como se flutuassem acima das minhas. A minha-tua pele, que envolvida em mim, tatua em minha vida, tuas pupilas dilatadas que não ousavam desviar das minhas, enquanto em nosso subconsciente, silenciávamos os aplausos daquele espetáculo com o som de nosso suspiro. 

Aah, tua pele... Pendurada, balança com o vento e revela como teu quadril se mexia e me roubava o futuro. Hoje, é a tolha no vento que anuncia incertezas. A cada movimento embalado pelo vento, mais teu cheiro deixa o pano, perde-se no ar, e com ele tua lembrança se vai. 

Ainda te vejo na minha-tua pele, mas há dúvida. Pois o tecido se renova, muito rápido. E eu fiquei com teu pedacinho de ontem. Tua pele renovada, pode não voltar. Renovar seria ganhar o mundo à procura do novo, ou retornar ao velho, talvez, simplesmente buscar outra pele para dividir o palco, o espetáculo e criar uma nova gota.

Da mesma forma que a primeira gota, nós experimentamos um caminho delicioso e fomos se juntar a outras gotas no chão. Seguir em frente. Só me resta pedir que o mesmo vento que balança a minha tua pele no varal e que arranca tua essência do pano azul, seja forte também ao me trazer um epitélio tão envolvente como, assim foi o seu. Fui honesto com o vento e não contigo, pois sei que você não voltará!

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