Uma paixão de tirar do chão

LEIA COM MUSICA
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Já era tarde, após um longo dia correndo pela facul, tudo que eu queria era a festa de encerramento. E a festa começou bem. Música, gente descontraída e, talvez, pelos embalos etílicos que nos envolviam, parecíamos todos rir da mesma coisa. Ou de coisa nenhuma.

Surpreendentemente, fui abordado pela linda morena da biblioteca, a quem eu me referia como Betty Boop dos anos 2000. “Me tira do chão”, ela disse. Simples e meiga ela repetia “me tira do chão vai, você tem cara de Homem que sabe como me tirar do chão”.

Apavorado e imediatamente em conflito com o corpo docente que nos observava no evento, fui obrigado a declinar do desafio. Mas, não consegui parar de pensar na frase, no jeito, no gesto, no olhar e nos lábios vermelhos, repetindo tal provocante frase. Afinal, o que ela estava insinuando, com um apenas, “me tira do chão”?

Sob um olhar físico, eu poderia abraçá-la como a quem agarra sua melhor oportunidade em um único movimento. Um abraço forte, sentindo toda sua volúpia e traços deliciosos de mulher. Seu corpo, um pêndulo solto no ar. Pernas se entrelaçando, enquanto seu quadril trombava com o meu. Mãos fortes em suas costas, sustentando a pressão provocada pelos seios que tocavam o meu peito. Por fim, o calor de minha respiração em seu pescoço perguntando o quão longe do chão estaríamos?

Por outro lado, longe de qualquer explicação concreta e dentro de um imenso cenário subjetivo (até que ponto?), entra em cena o poder de sedução, o calor de uma loucura instantânea, a viagem que é embarcar em uma nova paixão.

Alguém que de tão envolvente, aos poucos, te enche de esperança e aprovação. Quando você menos espera, já não sentes o chão. Com a cabeça nas nuvens buscando uma conexão percebes que o simples caminhar fica mais difícil sem estar com os pés totalmente na terra.

Olhos que buscam um lugar para dois no horizonte. Jogos, desafios, armações, tudo ficando para trás, após uma decolagem sem hora para retornar. A respiração embala rasantes e parafusos, no infinito azul de seus olhos. Você, então, percebe que tua mente agora não mais te pertence.

Em transe, o cheiro te carrega e teu olhar não mais consegue esconder a admiração, a vontade. E isso te enche por dentro, te faz subir, faz sentir os tremores e o calor que só uma mulher desejada pode sentir.

Seria isso então “me tira do chão”? Perder a razão e buscar nos suspiros ajuda para voltar à terra? Ainda hoje, quando escuto “me tira do chão”, tenho claro como é o olhar que me enfraquece as pernas, desconstrói meus conceitos e me leva... pra bem longe. 

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